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Insights

Paradas de Manutenção em Petroquímicas

20.05.2020

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Por Thiago Moretti

Especialista em Planejamento de Paradas

 

Como em qualquer outra indústria, a indústria petroquímica requer uma manutenção dos seus equipamentos em períodos determinados. Uma petroquímica faz, em média, uma parada de manutenção a cada quatro anos. Dependendo do processo, essa manutenção pode ser feita a cada seis anos.

Normalmente o tempo de parada varia entre 20 e 30 dias corridos, dependendo muito do tempo dos projetos que poderão ocorrer dentro da parada. Já o efetivo pode variar entre 2.500 a 5.000 mil colaboradores. É importante ressaltar que uma planta petroquímica com produção paralisada pode atingir valores acima de R$ 1.500.000,00/dia.

Por se tratar de uma indústria que gera produtos de muito valor agregado, conforme os valores citados, a parada de manutenção deve ser feita de forma rápida e eficiente, com o tempo de execução determinado pelo serviço que fica dentro do caminho crítico. Para se obter o caminho crítico do projeto é preciso somar as durações de todas as atividades em cada um dos sequenciamentos existentes. Ao fazer isso, e identificar a maior duração, tem-se o caminho crítico do projeto. As folgas correspondem aos períodos (geralmente dado em dias) que as atividades de um caminho não-crítico podem sofrer em atrasos sem que o cronograma seja afetado.

Normalmente, utilizamos o Risk Analisys para validar se o tempo de execução do caminho crítico está exequivel, inserindo as incertezas e os eventos de risco. Ao executar o software teremos a probabilidade de entregar os trabalhos conforme cronograma com as datas deterministicas. Após a verificação da probabilidade são inseridas as mitigações dia/riscos e novamente avaliada a probabilidade de entrega mantendo o prazo.

É importante ressaltar que apenas as atividades que não participam do caminho crítico possuem folga. Qualquer trabalho a ser feito após a planta entrar em funcionamento gera prejuízos enormes. Por isso, nas empresas petroquímicas existe um departamento especializado em planejamento de paradas de manutenção a fim de maximizar o rendimento dos serviços a serem realizados e evitar posteriores perdas de produção ou mesmo retrabalho.

O planejamento depende da utilização de ferramentas adequadas para a sua elaboração e para o acompanhamento posterior do andamento dos trabalhos. Para isso, hoje seguindo uma metodologia de paradas baseada na metodologia de projetos “FEL”, inicia-se o planejamento para o evento 24 meses antes da data da parada. Esse planejamento é dividido em fases. Ao final de cada uma delas é realizada uma reunião para validar a documentação gerada na fase e definir se o andamento do evento prossegue ou se é preciso adotar novas linhas de atuação.

O processo de parada começa pela elaboração do escopo, porém antes de pensar em quais seviços realizar é necessário definir as premissas e definir as regras do jogo. Dessa forma, será possível indicar uma linha de raciocínio seguida para a elaboração do escopo.

Para a fase de elaboração de escopo são levantados, junto às disciplinas, os trabalhos que só podem ser realizados em parada de manutenção. As disciplinas que demandam esses trabalhos são:

  • Manutenção;
  • Segurança do Trabalho e Meio Ambiente;
  • Engenharia de Processo;
  • Operação;
  • Inspeção;
  • Engenharia.

Outros setores (disciplinas) podem ter alguma demanda, porém esses são os principais demandantes.

Com a lista de atividades elaborada em um template, inicia-se o dicionário do escopo, onde são inseridas diversas colunas e informações que serão utilizadas para a formatação do custo previsto da parada e para auxiliar na elaboração do planejamento da parada. Nessa etapa são levantadas informações como: se será necessário andaime, se será necessária máquina de carga, NR-13, quem damandou o serviço, entre outras diversas informações. Com essas informações inseridas em uma planilha, ao final da fase 2 da metodologia, você congela o seu escopo e terá um ano para elaborá-lo e validá-lo.

Ponto importante: sempre ao término de uma fase/etapa realizamos uma reunião de lições aprendidas com todo o time para verificar os erros e acertos, planilhar as informações recebidas para termos um histórico rico e, assim, evitar que erros se repitam. Também são levantados os pontos positivos, levando em consideração que uma parada de manutenção acontece dentro de um prazo determinado conforme a necessidade da unidade.

Com o escopo elaborado e a participação de uma equipe multidisciplinar é feita a análise de risco, adicionando critérios de avaliação financeiros/riscos, e definidas quais atividades precisam realmente estar no escopo de uma parada geral, avaliando as oportunidades.

É possivel visualizar de forma bem ampla a importância de trabalhar um escopo muito consistente, com as entradas e saídas previstas ao longo do tempo. Para isso, um escopo bem definido é fundamental para a qualidade do planejamento de paradas. É preciso levar em consideração, também, que durante o processo alguns serviços vão deixar de entrar e sair e isso pode ocorrer até a data da parada. Como a unidade estará em funcionamento isso com certeza vai gerar novos trabalho para a execução em parada geral.

Logo, é de extrema importância para cada fase de planejamento elaborar os KPIs para o acompanhamento da eficiência e da produtividade da equipe. Esses KPIs devem ser moldados conforme a necessidade de controle da parada, o que é necessário acompanhar durante a parada, e que facilite as tomadas de decisão.

Crie um KPI para que com o auxílio de um dashboard você tenha fácil acesso à visualização do andamento dos trabalhos. Um KPI de extrema relevância é o relativo ao escopo, que vai reunir vários indicadores, entre eles abertura de notas, criação de ordens, detalhamento de ordens, atribuição de notas a ordens, criação de atividades no software específico e verificação de existência de folha de tarefa.

Com o escopo “congelado” você inicia o processo de contratações, elaboração de cronogramas, materiais, serviço a pessoas, segurança do trabalho, meio ambiente, entre muitas outras frentes. Para o planejamento é importante iniciar o detalhamento das atividades, levando em conta que em uma parada petroquímica podemos atingir mais de 4 mil itens (TAG´s) que sofrerão manutenção.

Por isso, é necessário tempo para que todos sejam bem avaliados e planejados, colocados em um software de planejamento, podendo passar de 50 mil linhas de atividades a serem realizadas. Todas elas serão discutidas e reavaliadas com a participação da operação e da equipe técnica por diversas vezes a fim de deixá-la o mais próximo possível da execução. Com esse processo em andamento entramos na fase 3 da metodologia, onde a parada é realmente planejada.

De 4 a 6 meses antes da parada geral, iniciamos a pré-parada. Muitos podem perguntar o porquê de começar tão antes. Mas para preparar uma petroquímica para uma parada geral montamos aproximadamente 400 mil metros de andaime. Além disso, iremos manutir mais de 1.000 válvulas durante a parada. Para fazer uma boa liberação operacional montamos aproximadamente 200 toneladas de tubos para auxiliar na limpeza dos equipamentos, evitando, assim, atrasos para acessar o interno do equipamento quando a manutenção for iniciada.

Para a acompanhar com um bom nível de controle, o ideal é a elaboração do planejamento separado em cinco cronogramas, sendo eles: pré-parada, liberação operacional, manutenção, partida operacional e pós-parada. Tudo isso é necessário levando em consideração o grande número de atividades e também para facilitar o controle e tornar o acompanhamento assertivo e real.

Cronogramas prontos, recursos nivelados e caminho crítico identificado, durante a principal fase da parada geral é gerada a programação por turno, área, especialidade e encarregado para, assim, ser bem específico e claro com o trabalho que cada um precisa realizar.

O supervisor recebe uma programação global que traz um horizonte de pelo menos um ou dois turnos à frente para evitar a  paralisação de serviços e facilitar o deslocamento de mão de obra devido a alguma mudança de plano.

Com o cronograma sendo atualizado, serão realizadas reuniões diárias com toda a liderança da empresa para apresentação dos números de KPIs e da curva de avanço físico do evento, onde poderemos de forma simples e rápida identificar se o evento está dentro do planejado ou, em caso de atraso, tomar uma decisão para um plano de recuperação.

 

Considerações finais

O projeto de manutenção de uma parada petroquímica apresenta características específicas que o torna diferente de qualquer outro serviço de manutenção. Equipamentos grandes, complexos e que lidam com um insumo de alto valor agregado, o petróleo e seus derivados, fazem com que o planejamento e a execução dos serviços sejam realizados de forma detalhada.

Para se obter lucro em um empreendimento deste porte é imprescindível ter conhecimento das diferentes formas de contratação, saber avaliar o escopo do serviço a ser realizado e, obviamente, saber orçar corretamente, sendo o ponto mais importante da parada junto à execução. Muitas vezes, erros no orçamento surgem por uma má avaliação no serviço a ser executado.

Existem diversas ferramentas de planejamento que auxiliam no diagnóstico do verdadeiro escopo dos trabalhos a serem realizados. Através de softwares específicos é possível estimar a quantidade de mão de obra necessária para realizar um determinado serviço, as tarefas que devem ser priorizadas e suas respectivas sequências de execução.

A tomada de decisão na hora de participar de um projeto de manutenção em uma indústria petroquímica não é trivial. Existem diversos fatores a serem considerados neste processo decisório: qualidade da mão de obra local, legislação vigente, sindicatos, prazo, custos, fornecedores e riscos ambientais, entre outros.

No entanto, cabe ao coordenador da parada ponderar essas variáveis e tomar uma ação. Em um mercado cada vez mais competitivo, saber quando executar ou não um projeto de manutenção é essencial para a saúde financeira da empresa e essa decisão precisa ser em conjunto com várias áreas, principalmente o planejamento de produção e a área comercial.

São muitos os personagens envolvidos e há uma forte inter-relação entre as atividades desenvolvidas por diferentes empresas. A aplicação de ferramentas de planejamento e controle diminue as incertezas e facilita a gestão da parada de manutenção, assim como possibilita acompanhar uma metodologia que agrega premissas que ajudam a consolidar os avanços de trabalhos.