Por Marcio Tannure, Diretor de Mineração, Siderurgia, Metais e Infraestrutura da Timenow | outubro / 2026
A corrida global por minerais críticos no Brasil revela uma transformação estrutural no setor mineral. O movimento não está relacionado apenas à expansão das grandes mineradoras, mas também à entrada acelerada de junior miners estrangeiras em fases iniciais de prospecção.
Essas empresas chegam ao país atraídas pelo potencial geológico brasileiro, pela transição energética e pela crescente demanda mundial por matérias-primas estratégicas. Entretanto, o desafio começa quando é necessário transformar reservas minerais em operações industriais viáveis.
Nesse contexto, a engenharia brasileira assume papel estratégico na estruturação, implantação e operação desses projetos.
Brasil amplia protagonismo no mercado de minerais críticos
O Brasil consolidou-se como uma das principais fronteiras minerais do mundo.
No caso das terras raras, estudo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), com dados do CETEM, aponta que o país concentra cerca de 23,1% dos recursos globais conhecidos. Apesar desse potencial, sua transformação em vantagem competitiva depende do desenvolvimento de capacidades industriais em processamento, separação, refino e produção de materiais de maior valor agregado.
No lítio, o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, tornou-se uma das principais regiões brasileiras de expansão da atividade. A produção nacional avançou de forma expressiva nos últimos anos. Além disso, grande parte do concentrado produzido no país ainda é destinada à China, principal centro global de processamento químico e fabricação de componentes para baterias.
Dessa forma, o cenário evidencia uma oportunidade clara: avançar além da extração e ampliar a participação brasileira nas etapas de maior valor agregado da cadeia mineral.
Transição energética amplia demanda por minerais estratégicos
A transição energética, a eletrificação da mobilidade, a expansão das fontes renováveis, o armazenamento de energia e a digitalização estão aumentando a demanda mundial por minerais estratégicos.
A edição de 2026 do Global Critical Minerals Outlook, da Agência Internacional de Energia, aponta que, no cenário baseado nas políticas atualmente estabelecidas, a demanda pelos minerais críticos analisados continuará crescendo fortemente até 2040. O lítio apresenta uma das maiores expansões projetadas, enquanto níquel, grafite e terras raras também registram crescimento relevante.
Portanto, mais do que uma questão mineral, trata-se de uma transformação das cadeias globais de energia, indústria e tecnologia.
Ao mesmo tempo, com reservas relevantes e diversidade geológica, o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse movimento.
Encontrar o minério é apenas o primeiro passo
Para investidores e junior miners, identificar uma reserva mineral economicamente promissora representa apenas o início da jornada.
Na prática, o verdadeiro desafio está em converter o potencial geológico em um projeto capaz de ser licenciado, financiado, construído e operado de forma segura e competitiva.
Empresas estrangeiras que iniciam operações no Brasil encontram um ambiente com características próprias: legislação ambiental abrangente, requisitos de segurança específicos, diferentes exigências regulatórias, particularidades tributárias e uma dinâmica própria de implantação de grandes empreendimentos.
Além disso, também precisam lidar com fatores macroeconômicos, disponibilidade de infraestrutura, fornecedores locais e custo de capital.
Quanto maior o custo de capital, maior a necessidade de assertividade na estruturação do empreendimento. Estudos insuficientes, projetos pouco maduros e falhas de planejamento aumentam a exposição a mudanças de escopo, atrasos, custos adicionais e problemas durante a implantação.
Por isso, é justamente nessa transição entre reserva mineral e empreendimento industrial que a engenharia passa a ter papel decisivo.
O desafio brasileiro está também no processamento mineral
Outro ponto importante para a competitividade brasileira está na capacidade de avançar nas etapas intermediárias e finais da cadeia de valor.
O Brasil possui competência relevante no upstream, incluindo exploração, extração e beneficiamento. Entretanto, ainda existe espaço para ampliar a participação nacional no midstream e no downstream, com atividades como separação química, purificação, metalurgia avançada, fabricação de materiais e produção de componentes industriais.
O caso das terras raras ilustra esse desafio.
Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 a China respondeu por aproximadamente 91% da produção mundial refinada de terras raras utilizadas em ímãs e por cerca de 94% da fabricação global de ímãs permanentes sinterizados.
Como consequência, essa elevada concentração transforma domínio tecnológico e capacidade industrial em questões diretamente relacionadas à segurança das cadeias globais de suprimentos.
Para o Brasil, avançar nessas etapas exige pesquisa, inovação, engenharia de processos e desenvolvimento de soluções adequadas às características das reservas nacionais e às exigências ambientais brasileiras.
Engenharia brasileira transforma reservas em projetos
É justamente nesse cenário que empresas brasileiras de engenharia e gestão de projetos para mineração ganham relevância estratégica.
As dificuldades enfrentadas pelas junior miners raramente estão relacionadas apenas à existência das reservas. Elas aparecem principalmente quando o empreendimento precisa avançar da geologia para a engenharia, da engenharia para a implantação e da implantação para uma operação industrial segura e economicamente sustentável.
Assim, o obstáculo deixa de ser exclusivamente geológico e passa a envolver aspectos técnicos, ambientais, regulatórios, financeiros e operacionais.
Empresas especializadas podem atuar desde os primeiros estudos de viabilidade até a implantação do empreendimento, incluindo:
- engenharia conceitual, básica e detalhada;
- estudos de viabilidade e desenvolvimento do projeto;
- licenciamento e gestão ambiental;
- engenharia de processos;
- planejamento e controle;
- gestão de CAPEX;
- gerenciamento de riscos;
- estratégia e gestão de contratos;
- construtibilidade;
- gerenciamento da implantação;
- comissionamento e preparação operacional.
Consequentemente, a qualidade dessa estruturação influencia diretamente a capacidade do empreendimento de obter financiamento, receber novos aportes, cumprir cronogramas e avançar para a operação.
US$ 21,3 bilhões previstos para minerais críticos até 2030
A perspectiva de crescimento dessa cadeia também aparece nas projeções de investimentos.
O Instituto Brasileiro de Mineração estima US$ 76,9 bilhões em investimentos na indústria mineral brasileira entre 2026 e 2030. Desse total, aproximadamente US$ 21,3 bilhões estão relacionados a minerais críticos, incluindo cobre, níquel, terras raras, grafita, lítio, nióbio e zinco.
Com isso, esse volume de capital amplia a demanda por engenharia especializada, gestão de projetos, consultoria técnica, soluções EPC e capacidade de implantação.
Além disso, cria oportunidades para profissionais brasileiros que acumulam décadas de experiência em empreendimentos de grande porte, ambientes remotos e cenários de elevada complexidade técnica e regulatória.
Da mineração à siderurgia, passando por óleo e gás, energia e infraestrutura, essa experiência permite antecipar gargalos, estruturar governança, administrar riscos e conduzir projetos nos quais cada etapa exige disciplina, planejamento e precisão técnica.
Nova política fortalece a agenda de minerais críticos no Brasil
A discussão sobre competitividade ganhou um novo marco em setembro de 2026, com a sanção da Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
A legislação estabelece instrumentos voltados à pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral e desenvolvimento industrial de minerais considerados críticos ou estratégicos para o país.
Além disso, a política busca estimular pesquisa, inovação, desenvolvimento tecnológico e maior participação brasileira nas diferentes etapas das cadeias produtivas minerais.
Dessa forma, o movimento reforça uma mudança importante de perspectiva: possuir reservas estratégicas é relevante, mas transformar essas reservas em desenvolvimento industrial exige tecnologia, engenharia, investimentos e capacidade de execução.
A vantagem competitiva está na capacidade de execução
O Brasil reúne reservas significativas, crescente interesse internacional, uma indústria mineral consolidada, profissionais especializados e uma política pública direcionada ao desenvolvimento da cadeia de minerais críticos.
No entanto, a corrida global por minerais críticos é, essencialmente, uma disputa por capacidade de execução.
As reservas atraem investidores.
A engenharia transforma investimentos em projetos.
E, por fim, são projetos bem estruturados que se transformam em produção, industrialização e geração de valor.
Por isso, nesse mercado, a vantagem competitiva brasileira não estará somente na disponibilidade mineral. Estará também na capacidade de projetar, implantar e operar empreendimentos complexos com segurança, eficiência, disciplina e precisão.